A experiência acabou sendo bem diferente do que eu imaginava. Em vez de tranquilidade, encontrei uma agitação difícil de controlar: uma espécie de deslocamento do desejo, que começou a se infiltrar em lugares e relações onde ele não cabia. Essa experiência acabou me fazendo repensar o discurso moral sobre o pornô e, principalmente, o papel que ele ocupa na forma como a gente lida com o próprio corpo, com o afeto e com o silêncio da solidão.

Muito se fala sobre como a pornografia “faz mal”, “vicia” e “destrói a afetividade”. É o tipo de discurso que soa limpo, bonito, moralmente elevado. Mas, no fundo, ele ignora uma parte importante da realidade: o que acontece quando uma pessoa deixa de consumir pornografia e continua sozinha?

Desde que parei de ver pornô, percebi algo que ninguém menciona nesses discursos higienizados sobre pureza sexual: eu me tornei um tipo de predador social. Não no sentido criminoso ou agressivo, mas de alguém tomado por um desejo sem direção, tentando resolver no mundo real algo que antes era regulado no digital. Comecei a flertar com pessoas que não tinham o mesmo interesse, a forçar vínculos afetivos em amizades rasas, a tentar reciclar laços que não tinham profundidade em algo mais intenso. O resultado foi previsível: constrangimento, rejeição e a sensação de que cada tentativa deixava tudo mais frágil.

A pornografia, por mais desconfortável que seja admitir, sempre funcionou como uma espécie de amortecedor. Era o espaço onde o impulso podia existir sem consequência social, onde o desejo podia respirar sem invadir ninguém. Sem ela, o corpo ficou sem rota de escape. E o desejo, sem espaço pra ser digerido, começou a se misturar com carência, solidão e confusão emocional.

É curioso como o moralismo sobre o pornô parte de uma suposição silenciosa: a de que todo mundo tem acesso a uma vida afetiva ativa, saudável e recíproca. Mas quem vive fora do padrão; um homem gay, acima dos 30, num país conservador e emocionalmente analfabeto, sabe que as coisas não funcionam assim. A pornografia, nesse contexto, não é um luxo nem um vício: é uma ferramenta de sobrevivência.

Existe uma diferença clara entre o homem hétero e o homem gay quando se trata de expressar desejo. Um hétero flerta e é considerado confiante, charmoso, “descontraído”. Um gay flerta e é visto como “inadequado”, “invasivo”, “carente”. Essa vigilância constante sobre o desejo gay cria um estado de autopoliciamento permanente. O simples ato de demonstrar interesse já carrega a suspeita de estar ultrapassando um limite. O desejo passa a existir sob tensão, como algo que precisa ser contido, explicado, justificado.

E quando você passa dos 30, a coisa complica. As pessoas da sua faixa etária já estão em relacionamentos, ciclos estáveis ou desinteressadas em conexões novas. O gay solteiro vira quase uma anomalia: alguém que “não amadureceu emocionalmente”. Mas e se o problema não for imaturidade, e sim solidão? E se o pornô for o último espaço onde o desejo ainda encontra lugar pra existir sem pedir desculpas?

Eu perdi amigos tentando transformar o que era uma convivência morna em algo mais íntimo. A ausência do pornô não destruiu essas amizades, apenas escancarou o quanto elas eram frágeis, funcionais, sustentadas por uma solidão mútua. Tentei dar sentido a vínculos que nunca tiveram substância, e o resultado foi me sentir mais isolado do que antes.

A verdade é que o pornô não é sobre prazer apenas. É sobre regulação. É sobre conseguir lidar com o corpo, com o impulso, com o silêncio do desejo, sem depender da validação ou da disponibilidade de ninguém. E é também sobre escapar da lógica do desespero; essa que transforma cada flerte em tentativa de sobrevivência.

Não se trata de defender o pornô como algo “bom”. Mas negar sua função social e psíquica é uma hipocrisia. A pornografia é, muitas vezes, o último território onde o desejo de quem vive à margem ainda pode existir sem julgamento. Ela não é cura, nem solução. É sintoma, é paliativo, é estratégia de contenção.

Às vezes, o pornô não é fuga. É o que impede o corpo de explodir num mundo que ainda não aprendeu a lidar com o desejo de quem não cabe na norma.

O ponto principal do texto acaba aqui! A nota abaixo é um adicional opcional :)

Eu tô pra escrever esse texto tem muito tempo. Desde que fui demitido do hotel, passei por um turbilhão de emoções muito diferentes. Teve uma briga aqui em casa, fui questionado novamente sobre a minha independência financeira (pela minha própria família), e acabei ficando sem chão. Sem saber pra onde olhar, pra onde correr, sem saber o que fazer.

Me fechei em casa. Minha cabeça começou a girar em lugares que eu não gosto de ir, a passear por pensamentos que eu prefiro evitar. E, de repente, eu me vi novamente sem nada a perder. Liguei o modo metralhadora giratória de emoções. Comecei a fazer coisas que antes eu não tinha coragem, talvez porque eu sentia uma espécie de desmoronamento interno. Era como se nada fosse ruim o bastante pra me impedir.

E aí comecei a me desafiar. Fazer coisas perigosas, emocionalmente falando. Por exemplo, avançar em amizades que eu nem sabia se eram amizades de verdade. Às vezes eu só achava a pessoa bonita e pronto: atravessava a linha do convencional. E, sinceramente, não acho que flertar deva ser visto como algo errado.

Eu tô pra escrever isso há muito tempo porque isso me assombra: as amizades que eu perdi. Amizades que eu considerava muito. Mas, ao mesmo tempo, eu já escrevi sobre o quanto meus vínculos de amizade sempre foram desproporcionais. Eu sempre fui o amigo mais dedicado, mais presente, aquele que tem mais tempo, talvez por ser mais solitário, por ter uma rotina mais leve, por valorizar demais as conexões que tenho.

Mesmo assim, eu me senti em perda. Eram amizades desbalanceadas, onde eu sempre estava disponível, sempre à disposição, quase como um servente da relação, e a outra pessoa era o “tanto faz, tanto fez”. E, de certa forma, eu já aceitei esse desnível. Acho que ele é comum na minha rotina, pelo tipo de pessoa que eu sou, pelo contexto social em que eu tô inserido e pelo modo que escolhi viver a vida.

Eu tô pra escrever esse texto há bastante tempo porque, talvez um dia, eu crie coragem de enviar pra essas pessoas. Pra tentar explicar o que se passou na minha cabeça. Se eu enlouqueci, se eu perdi a sanidade, se eu só estava tentando me manter de pé. Talvez elas entendam. Talvez já entenderam. Talvez tenham empatia, talvez me conheçam o bastante pra saber que nada do que eu fiz foi por mal.

Talvez tenham pena. Ou maturidade. Ou só o distanciamento suficiente pra entender que eu sou uma pessoa como qualquer outra, que talvez tenha sido inapropriada em alguns momentos, mas nunca nociva, nunca mortal, nunca criminosa.

E, no fim das contas, talvez escrever seja a única forma de colocar em ordem o que nem eu mesmo entendi direito.

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