Há algo de estranho e revelador no modo como muitos brasileiros têm usado o português nos últimos anos. Não se trata apenas da mistura com palavras em inglês, mas de uma transformação mais sutil: nós começamos a pensar e sentir em estruturas que não são nossas, usando o português como tradução de uma mentalidade anglófona. Dou o nome de Síndrome do Não Pertencimento.
Não é uma escolha consciente. É uma colonização simbólica, cultural e linguística que se infiltra nos detalhes: na legenda do story, no tweet engraçadinho, no vídeo do TikTok, no e-mail corporativo. Uma reconfiguração da nossa língua para que ela soe “mais global”. Mais alinhada com a estética e o pensamento de quem fala inglês, mesmo que a gente ainda esteja escrevendo em português.

A nova cara do português: familiar, mas traduzido
Veja alguns exemplos comuns que você provavelmente já disse, leu ou ouviu:
Literalmente, eu não aguento mais. Honestamente, não vejo mais sentido em nada. A acurácia desse teste é surreal. Fulano é muito aleatório. Ela me invalidou completamente. A estética desse filme me deixou obcecado.
Essas palavras existem no português, mas os usos que fazemos delas não nasceram aqui. Elas são moldadas por expressões em inglês que se tornaram comuns na cultura pop global: Literally, Honestly, Accuracy, Vibes, Random, Invalidate, Aesthetic.
E assim, nosso português vira um espelho traduzido de um jeito de ser que não é o nosso.
O que está em jogo não é vocabulário, é pertencimento!
A Síndrome do Não Pertencimento nasce da vontade de parecer outro. De performar uma identidade mais conectada com o “centro” — o centro simbólico do mundo, que hoje fala inglês, posta em inglês, pensa em inglês. Essa síndrome não nos faz apenas adotar palavras: ela reformula o modo como organizamos frases, afetos e até raciocínios.
É por isso que dizemos “me identifico” no lugar de “me reconheço”. “Estou obcecado” no lugar de “estou encantado”. “É sobre isso” como tradução de it's giving... ou that's it.
Tudo isso é mais do que modismo: é sintoma.
Uma nova forma de colonização
E das mais perigosas: porque não parece colonização. Parece “estilo”.Mas, como nos alertou Paulo Freire, a colonização mais eficaz é aquela que se disfarça de liberdade.
Frantz Fanon escreveu sobre como corpos colonizados adotam as máscaras do colonizador para sobreviver e se inserir. Aqui, o que fazemos é semelhante: não usamos o inglês por necessidade, mas por desejo. Desejo de ser visto, aceito, elevado. Mesmo que isso signifique perder nuances da nossa própria língua.
O que perdemos no caminho?
A espontaneidade da nossa fala, a riqueza da multiplicidade regional, a expressividade que nasce da realidade, não da tradução. Estamos moldando o português para caber numa estética que nem é nossa. E quanto mais isso se torna natural, mais difícil é perceber que há algo errado.
E daí?
Não se trata de rejeitar o inglês. O problema não é a mistura, é a submissão. A proposta é simples: tomar consciência. Perguntar: por que escolhi essa palavra? O que ela esconde? Que desejo ela revela? A Síndrome do Não Pertencimento nos afasta da nossa voz, e reconhecer isso já é um primeiro passo para retomá-la.
