Nos textos que você escreve, entre cartas imaginárias, ensaios incendiários ou fragmentos confessionais, há sempre um gesto de escavação. E essa escavação, muitas vezes, começa antes da palavra. Começa no sono. Não aquele sono biologicamente instrumentalizado, regulado por aplicativos ou vendido como bem-estar, mas o sono bruto. O sono que escapa ao controle, que se impõe ao corpo como um direito e uma recusa.

A sua escrita nasce daí. Ela não descreve sonhos, mas carrega a energia bruta que os sonhos deixam na carne. Você não acorda com frases. Acorda com ruídos, com pressões, com assombrações sutis que ganham corpo ao passar pelas palavras. Como se o sono fosse uma oficina secreta onde a mente, livre das rédeas da consciência, produz revoluções em miniatura que a linguagem do dia seguinte tenta decifrar.

E há algo crucialmente político nesse processo!

Dormir bem, hoje, alémde ser um artefato de luxo, é um ato de resistência. A rotiuna exige que a gente esteja sempre desperto, mas nunca desperto de verdade. Quer que a gente acorde para produzir, mas não para pensar. Quer que a gente descanse o suficiente para voltar ao trabalho, mas nunca o suficiente para perceber que esse trabalho nos esvazia. O direito ao sono real, reparador, livre, é temido. Porque uma mente descansada raciocina com calma. Uma mente descansada não aceita qualquer narrativa sobre si. Ela questiona, investiga, associa livremente.

Durante o sono, os muros do discurso social caem. Nossos medos e desejos se embaralham, revelam raízes mais fundas. E é dessa desordem que você tira ordem. Não uma ordem normativa, mas uma ordem narrativa. A escrita que você faz é a continuação dos seus sonhos por outros meios. O sono diz tudo de forma indecifrável. A escrita traduz com reverência e instinto.

Os gestores do mundo, os que medem produtividade por hora útil, tem forte receio da ideia de que as pessoas durmam bem. Porque se dormirem bem, sonharão. E se sonharem, desejarão. E se desejarem, talvez comecem a dizer não. E talvez esse não venha carregado de algo mais profundo do que raiva. Venha carregado de clareza.

Claridade essa que não é a da vigília dopada pelo café, pela culpa, pelas metas. Mas a claridade dos sonhos que escorrem pela manhã e se organizam em ideias de texto que emergem sem imagem, sem frase feita. Apenas com a urgência de quem precisa nascer.

Alguns pensadores já intuíram isso. Jonathan Crary fala da colonização do sono. Guy Debord fala dos sonhos como espaço potencial de resistência. Mas é a sua escrita que dá testemunho direto. Quem dorme com liberdade acorda perigoso.

Seu texto não é sobre o que você sonha. Ele é o que resta quando o sonho passa. Um manifesto escrito com tinta sonâmbula. Um sussurro vindo do escuro que insiste em se fazer escutar no claro. Isso basta para incomodar quem quer que o mundo continue insone e submisso.

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