Hoje (uma segunda-feira da segunda semana de aulas), eu cheguei à noite, tomei meu banho, joguei uma partida de Valorant e fui pra cozinha fazer um pãozinho com nutela. Fiquei parado na frente da torradeira, vendo dois pães dourando devagar. Aí eu cruzei os braços e me desafiei: será que consigo ficar aqui só esperando, sem checar o quanto falta, sem analisar a cor do pão, sem checar se a brasa tá queimando?

Um momento bobo virou uma provocação ao jeito que eu levo a vida. Eu me vi dentro de um hábito meu, quase um vício: querer acompanhar os processos, entender o motivo de tudo, procurar explicação pra cada gesto das pessoas, pra cada silêncio, pra cada ausência. Por que fulano não gosta de mim? Por que meu chefe não responde há mais de uma semana? Por que sinto saudade de quem parece não sentir a minha? Por que essa pessoa sente minha falta mas não sabe se comunicar pra resovler as coisas? As perguntas se atropelam. É como se eu só aceitasse as coisas quando existe uma justificativa clara, um raciocínio coerente, uma lógica que sustente o acontecimento de cada evento.

Eu percebo que vivo perseguindo coerência em cada detalhe. Fecho a porta pra não entrar o gato, deixo tudo pré-arrumado antes de começar uma tarefa, faço quadros de progressão pra projetos minúsculos e simples, crio cenários planejados para que nada fuja do controle. No fundo, é uma tentativa de não ser surpreendido. Mas talvez isso esteja mais desgastando que me protegendo.

Numa rápida pesquisa usando IA pra analisar esse comportamento, cheguei no que a psicologia chama de necessidade de fechamento cognitivo, que é essa coisa de precisar entender e calcular, pra poder processar e interpretar os acontecimentos. “A mente não suporta ficar em suspenso, sem resposta, sem sentido.” Só que essa ânsia também me aprisiona. Eu, até então, não consigo deixar que o pão simplesmente pule da torradeira no seu próprio tempo. Não no modo automático. Eu teria que me educar a isso.

Talvez esse seja o exercício: suportar o intervalo, suportar o silêncio, suportar o inexplicável. Aceitar que algumas coisas não têm argumento, não têm lógica que me satisfaça. Só acontecem.

E nesse instante, o pão quica. E nada que eu conclua, analise ou presuma do motivo do pão quicar, vai fazer ele deixar de quicar.

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