Talvez o seu problema comigo, ou com você mesmo, com a sua vida, seja estar pensando demais.
Porque, no fundo, você sabe exatamente o que queria estar fazendo. Você sabe que queria estar aqui. Criando um presente. Construindo com as mãos o tempo que escorre entre os dedos. Você queria estar dividindo silêncios, tardes comuns, manhãs sem alarde, instantes que não têm pressa de ser nada além de instantes.
Mas aí vem esse amanhã. Esse amanhã hipotético. Essa entidade fantasmagórica, criada e alimentada por tudo o que disseram que você deveria ser, que você deveria conquistar, que você deveria provar. Um amanhã que te promete segurança, status, aceitação, mas cobra uma moeda alta: a renúncia do agora.
E pra esse amanhã, dizem que você precisa se afastar. De tudo que te faz sentir. De tudo que te conecta com o presente. Porque o presente, aparentemente, não rende lucro. Porque o presente não paga boletos, não acumula títulos, não conquista respeito de pai e mãe, cria histórias que não satisfazem seu ego ao contar para os amigos, não acrescenta pontos de reputação.
E então você se ausenta. Se ausenta, de nós, de si mesmo, da possibilidade de viver algo que já era real.

Esse amanhã que te prometeram, ele nem sabe que você existe. Ele é só uma ideia. Uma doutrina. Uma religião disfarçada de responsabilidade. Mesmo quando você não tem fé em nada, mesmo quando você diz que é livre, ele te amarra. Ele te diz que você precisa estar inteiro para um futuro que talvez nem venha, e que, se vier, vai exigir mais e mais renúncias até você nem lembrar mais quem era quando ainda podia escolher.
A gente não foi feito pra viver fugindo do agora. Isso é uma mutilação da alma.
E mais: quando a gente é diferente, divergente, isso se intensifica. Porque o futuro divergente não foi desenhado nos contos de fada, nem nas novelas das oito. O nosso futuro é sempre hipotético demais, incerto demais, invisível demais. Viver em divergência, pra muitos, é um desvio, e não um destino. É visto como um atalho pro fracasso, uma bifurcação perigosa da estrada principal da vida.
Não estou falando de uma prosperidade filosófica. Estou falando de representatividade concreta: do direito de ser, existir, crescer e ser respeitado ao lado de alguém como eu.
Muitos têm medo de ficar. Medo de tentar. Medo de ser feliz. Porque disseram que felicidade só vale se tiver a bênção de um modelo pronto. Um modelo que nunca nos incluiu! E por isso você foi. Ou se afastou. Ou deixou de tentar. E por isso eu fico, aqui, contemplando o vazio que o medo deixou.
Mas saiba: o que poderia ter sido vivido era real. Era possível. E ainda seria, se o amanhã hipotético fosse abandonado em paz em detrimento da escolha do hoje .
Os cumprimentos,do lado de cá do tempo,de alguém que só queria viver.
