A instituição do casamento, em qualquer uma de suas versões: hétero, gay, monogâmica ou até mesmo as tentativas mais alternativas que ainda orbitam sua estrutura, é, acima de tudo, um dispositivo político. Um projeto de poder, acordo histórico entre a Igreja e o capital.
Durante séculos, a Igreja Católica usou o casamento como forma de controle moral dos corpos, impondo normas sobre sexualidade, gênero, procriação e comportamento. Já o capitalismo, por sua vez, viu nesse pacto sagrado a oportunidade perfeita de transformar o lar em unidade de produção e consumo. É uma aliança tão sólida quanto qualquer outra celebrada no altar.
Mas há algo ainda mais cruel sob o véu dessa união: o casamento como solução econômica para a miséria.
Num país onde o salário mínimo não garante dignidade nem moradia individual, morar sozinho se tornou um luxo. Um quarto de fundos numa área minimamente segura custa metade ou mais da renda de quem recebe o piso nacional. Luz, comida, gás, internet - tudo soma-se a uma fatura insustentável. E então, o que o sistema sugere? Junte-se a alguém. Divida a conta. Divida o aluguel. Divida a vida.
Não é à toa que o casamento é exaltado não apenas como símbolo de amor, mas como estabilidade. Não estabilidade emocional, mas financeira. O lar não é construído sobre sentimentos, mas sobre planilhas. O afeto vira alívio fiscal. A vida compartilhada vira necessidade. É o que resta quando o Estado e o mercado decidem que um salário só não basta.
Por trás da ideia de “par ideal”, esconde-se uma exigência estrutural: o trabalhador pobre deve estar emparelhado, acoplado, permanentemente em regime de economia doméstica compartilhada. Só assim ele conseguirá sobreviver ao massacre silencioso de um sistema que remunera mal, cobra caro e chama isso de liberdade.
A Igreja dá a bênção. O capital, o carnê!
E ainda temos que ouvir que é bonito, romântico, maduro. Mas o que é, de fato, é funcional para o sistema. É um projeto de sobrevivência disfarçado de contos de fada. A monogamia compulsória, o ideal do casal feliz, os benefícios legais, tudo isso forma uma engenharia social destinada a um único objetivo: baratear o custo de vida de cada indivíduo ao obrigá-lo a partilhar sua existência, mesmo que isso signifique abrir mão da própria liberdade, do próprio quarto, do próprio silêncio.
É claro que há afeto genuíno em muitas relações. Mas a pergunta permanece: por que precisamos de um contrato jurídico-religioso para amar alguém? E, mais grave ainda: por que o mundo nos força a amar para conseguir pagar o aluguel?
O preço de transformar o casamento em instrumento de sobrevivência não se limita às finanças. Ele chega, silenciosamente, ao corpo. À cama. À libido.
Quando o casal é forjado mais por necessidade do que por desejo, quando a convivência é obrigatória por falta de alternativas habitacionais e econômicas, o desejo se esvai. O amor vira logística, o tesão vira ruído, e a cama, antes lugar de encontro, vira posto de recarga para o próximo turno de batalha contra as contas do mês.
Não é raro ver casais, heterossexuais ou não, atolados em boletos e frustrações, com a sexualidade estagnada, os afetos estacionados, as discussões dominadas por cobranças práticas, não emocionais. Não se discute o amor, discute-se o vencimento do cartão. Não se negocia o prazer, mas o rodízio da louça. Viver junto deixa de ser escolha, e vira coabitação compulsória. Uma espécie de prisão domiciliar emocional.
Isso não acontece porque o amor falha. Acontece porque a estrutura falha. Ninguém floresce dentro de um terreno estéril, e o atual modelo de sociedade é um deserto para a intimidade.
Se as pessoas tivessem acesso a moradia digna com um salário mínimo, se o aluguel não engolisse metade da vida, se a vida não obrigasse a dois a fazer o trabalho de um só corpo para conseguir comer.
Então, talvez, o amor fosse mais livre. A amizade, mais potente. O casamento, mais sincero.
Se não precisássemos de alguém para dividir as contas, talvez escolheríamos com mais cuidado com quem queremos dividir a vida. Não por interesse. Mas por afinidade real, por conexão verdadeira, e não pela urgência de evitar a decadência.
Porque nós não somos interesseiros por falha de caráter. Somos interesseiros por instinto de sobrevivência. Sabemos que vivemos numa pirâmide onde tudo que está acima de nós pesa, oprime, exige. E que para não desabar, a base precisa se acoplar, se juntar, se unir. Mesmo quando já não há mais vontade.
E assim seguimos: chamando de amor o que é, muitas vezes, apenas uma estratégia de resistência.
Essa engrenagem, que transforma amor em subsistência, também contamina os laços mais íntimos com veneno silencioso:
A Competição por Dignidade
Quantas vezes eu mesmo não vi, dentro da minha própria família, mulheres brigando entre si por coisas que, em um mundo mais justo, sequer seriam motivo de atrito. As brigas não eram pelo que pareciam. Não era pelo homem. Pelo olhar atravessado. Pelo “italiano que era meu”. O estopim podia ser qualquer um desses, mas o fogo vinha de mais fundo: da escassez.
Essas disputas sutis, que vão se acumulando nas entrelinhas de uma convivência marcada por frustração, não são sobre romance ou orgulho. São sobre sobrevivência emocional e social. São sobre o Battle Royale da dignidade. Um jogo cruel, em que cada um tenta encontrar uma posição minimamente confortável num mundo que não oferece terreno firme para ninguém. E, muitas vezes, a única forma de se manter em pé é pisar na cabeça de quem está ao lado.
Porque, num mundo onde tudo falta, qualquer pequena vantagem vira troféu. Uma conquista simbólica: o afeto de alguém desejado, um corpo desejável, um espaço minimamente mais iluminado no centro da narrativa. É o Game of Thrones das migalhas, onde não há tronos de ferro, mas há colchões compartilhados e homens divididos.
Essas tensões familiares, essas brigas que parecem banais, são só o reflexo de um sistema que ensinou que não há espaço para todo mundo. Que dignidade é coisa rara. E por isso, precisa ser arrancada, mesmo que seja do outro.
E tudo isso poderia ser diferente se a dignidade não fosse um prêmio escasso, mas um direito garantido. Se todos pudessem viver sozinhos, com paz, com espaço. Se amar fosse escolha, e não estratégia. Se as relações humanas não precisassem ser arenas, se os corpos não precisassem ser moedas.
Nem sempre é sobre dinheiro
E essa dependência que o casamento impõe, essa obrigatoriedade da partilha, não é apenas financeira. Ela é também simbólica. Representacional. Uma engrenagem mais sutil e talvez mais cruel, porque se esconde até mesmo nos corpos aparentemente mais livres.
Nem a Beyoncé escapa.
Mesmo com sua fortuna, seu legado artístico incontestável, sua posição de topo numa indústria brutal, a artista mais premiada da história do Grammy ainda viveu, e talvez ainda viva, dentro de uma estrutura de parceria desigual. Jay-Z traiu publicamente. Ela respondeu com arte. Ele errou com recorrência e ela perdoou no mesmo ritmo. A dinâmica é conhecida por qualquer mulher que cresceu dentro de um lar religioso: perdoar é virtude, resistir é amor, salvar o outro é missão. A performance da mulher que segura o lar, mesmo quando o lar está desabando em cima dela.

O amor, nesses moldes, vira mais um palco. A cumplicidade não é horizontal. É investimento, é gestão de crise, é cálculo de reputação. Não por frieza, mas porque essa mulher, mesmo bilionária, sabe que sua imagem de força está atrelada a algo maior que sua conta bancária: está atrelada à manutenção de uma narrativa que sempre a posiciona como alguém disposta a perdoar mais do que pode errar.
E isso é ainda mais cruel quando pensamos na origem dessa configuração. Vem de longe. Das casas religiosas. Das famílias em que a rigidez é travestida de amor. Onde pais ensinam que “sucesso” é o que se constrói com sacrifício. E o sacrifício geralmente é da filha, da mulher, da sensível, da artista. Michael Jackson foi treinado como máquina. Beyoncé também. Com metas, coreografias, cronogramas e vigilância. Porque a prosperidade valia mais do que a espontaneidade. Mais do que a dignidade emocional.
E quando ela enfim chegou ao topo, com tudo que se pode conquistar, prêmios, influência, patrimônio, impacto cultural, ainda assim teve que se acoplar a um homem, consolidar um império a dois. E por mais que ela brilhe, e brilhe muito, há algo inquietante nessa simetria aparente. Porque o que está em jogo não é só o afeto, é a manutenção da ideia de que o sucesso feminino precisa vir emparelhado. Precisa vir com aliança. Com pacto. Com família. E o preço disso, mesmo para uma mulher como Beyoncé, é alto.
Talvez ela saiba quantas cabeças foram pisadas para que ela pudesse se erguer. Quantas pessoas ficaram para trás no caminho. E talvez ela carregue, silenciosamente, a consciência de que venceu o Battle Royale da dignidade - mas não sem ver o sangue dos outros pelo chão.
E o mais perverso disso tudo é perceber que, mesmo uma mulher que venceu, venceu dentro da lógica. Ela venceu jogando o jogo. Venceu apesar do jogo - mas ainda no jogo. E o jogo, por definição, já é injusto.
Por isso, a dignidade verdadeira não está em conquistar o topo. Está em nunca ter que escalar por cima de ninguém para existir. Está em poder escolher amar, escolher ficar, escolher sair. E que o lar não seja trincheira. Que o casamento não seja cláusula de sobrevivência. Que o amor não precise ser prova de resistência.
LOVEHAPPY, dos Carters, é um exemplo claro de como até o casamento mais poderoso pode ser atravessado por contratos emocionais e performatividade. A música narra a superação de uma traição, mas o tom é mais de reconciliação estratégica do que de perdão espontâneo. Beyoncé perdoa mais do que erra. Jay-Z assume a culpa com leveza. E juntos, reencenam e celebram um casamento que precisa sobreviver não só por amor, mas pela imagem, pela marca, pelo império. Contam conquistas materiais e preveem um futuro de riqueza material pra sua prole.
Mesmo no topo, a lógica é a mesma: o casamento se mantém como um acordo que sustenta não só afetos, mas também estruturas de poder. LOVEHAPPY soa como uma vitória, mas o que se ouve, por baixo, é a continuidade da mesma engrenagem, só que com ouro nos dedos. E é um musicão do caralho!
