Existe uma pandemia que não apareceu no noticiário. Ela não fechou cidades, não foi decretada como emergência global, não recebeu verba nem vigilância. Ela é silenciosa, espalha-se pelos corredores apertados das casas, pelos ônibus lotados, pelos celulares nas madrugadas insones. Essa pandemia tem nome: tristeza coletiva.
Não é uma tristeza individual, de um rompimento amoroso ou de um luto pessoal. É uma tristeza sistêmica, social, que se acumula e se instala no cotidiano das pessoas comuns — principalmente entre aqueles que sustentam o país com seu trabalho, mas que nunca recebem o devido reconhecimento ou retorno.
Essa tristeza não se deve apenas à ausência de recursos. Ela vem da ausência de horizonte. Da certeza de que o esforço não basta, de que não há promessa de melhora, de que qualquer tentativa de romper com a precariedade esbarra em muros invisíveis. É a sensação de estar constantemente afundando, mesmo quando se está fazendo tudo “certo”.

A dor silenciosa que adoece
A tristeza social vem acompanhada da dívida, da frustração, da sobrecarga emocional. Ela se alimenta do desânimo. Cresce com os boletos não pagos, com a comida racionada, com o medo de adoecer sem ter onde ser atendido. Mas cresce, também, com a percepção de que nada disso vai mudar, porque os caminhos reais para mudança foram desacreditados.
E entre esses caminhos desacreditados, o mais importante deles é a política.
O povo, sistematicamente, foi convencido de que política é sujeira, que nada muda, que “é tudo igual”. Esse convencimento não surgiu espontaneamente: ele é parte de um projeto. Um projeto que esvazia a confiança na construção coletiva para que todos se voltem a soluções mágicas, individuais e vazias.
A religião como anestesia, e não como libertação
Nesse cenário de desesperança, cresce um tipo específico de fé: uma religião que não emancipa, mas acomoda.A vertente pentecostal — especialmente em sua forma midiática e mercantilizada — tem ocupado o lugar da política como resposta para o sofrimento. Só que, ao invés de organização, ela oferece submissão. Ao invés de consciência, ela oferece obediência.
Promete bênçãos financeiras em troca de sacrifício. Demoniza qualquer crítica como “rebeldia espiritual”. Reduz a realidade a uma batalha entre o bem e o mal, e transforma qualquer tentativa de reflexão crítica em “influência do inimigo”.
Essa espiritualidade colonizada casa perfeitamente com o projeto capitalista. Ela não questiona as estruturas. Pelo contrário: ela legitima. Ensina que a pobreza é prova, que o sofrimento é espiritual, que a riqueza é recompensa divina. Naturaliza a desigualdade como plano de Deus. E, assim, impede que as pessoas percebam o sistema em que estão inseridas.
O suicídio social como projeto bem-sucedido
Não é exagero dizer que estamos vivendo uma forma de suicídio coletivo lento. Um colapso emocional das classes trabalhadoras que, mesmo com inteligência, criatividade e potência, foram convencidas de que não devem pensar. Que devem apenas sentir — e suportar.
O que poderia ser combustível de revolta vira culpa pessoal.O que poderia ser indignação vira resignação.A tristeza se torna rotina.A descrença, uma ideologia.
Nesse cenário, cresce uma indústria da promessa: apostas, jogos, gurus motivacionais, correntes milagrosas, promessas de riqueza instantânea. Não importa o formato. A lógica é sempre a mesma: não acredite na política. Acredite no acaso.O que antes era mobilização virou distração.
O desafio da reconexão com a realidade
Para romper com esse ciclo, é preciso reaprender a imaginar.A criar novas perguntas.A se permitir pensar diferente do que se ouve todos os dias.A reconstruir o senso crítico — que é o que mais incomoda o sistema.
Porque uma pessoa triste é mais fácil de controlar. Uma pessoa solitária, mais fácil de convencer.Uma pessoa que desistiu da política é uma vitória para quem lucra com a miséria.
O futuro não será uma dádiva espiritual nem uma aposta certeira. O futuro será o que formos capazes de construir juntos, com clareza, organização e consciência.
E isso só é possível quando a gente, mesmo cansado, começa a desconfiar do cansaço.
O tempo como território de luta
É por isso que debates como o fim da escala 6×1 importam tanto. Eles não são só sobre descanso — são sobre recuperar a humanidade de quem trabalha. Ter dois dias de folga por semana não é luxo. É dignidade. É saúde mental. É tempo para existir fora da lógica do lucro.
A luta por direitos trabalhistas, pela valorização do tempo livre, pela reconstrução do senso coletivo é o único caminho possível para tirar o trabalhador da lógica do sacrifício e devolver a ele o direito de viver.
Porque se o cansaço é usado como ferramenta de controle, o descanso precisa ser ferramenta de libertação.
E a dignidade não pode ser uma promessa para o além — tem que começar agora.
