Às vezes eu sinto que estamos vivendo amizades em fast-forward. A gente vê tudo o que os outros fazem, mas quase nunca vive junto. Foi daí que me veio a vontade de esconder os stories, os feeds, as atualizações. Eu queria devolver às amizades o mistério, o silêncio, a surpresa.

Estar de fato presente com quem a gente gosta é um privilégio, e eu quis experimentar isso de novo. Nos últimos meses, decidi não acompanhar mais as redes sociais dos meus amigos. Não é um gesto dramático, é só uma escolha simples: não ver feeds, não ver stories, não acompanhar cada detalhe do dia a dia deles. Tudo acontece quando estamos juntos, e isso me dá um prazer que rede nenhuma consegue reproduzir. Existe algo de profundo em ouvir alguém contar uma história como se fosse novidade, sentir a empolgação genuína de quem compartilha e saber que há alguém realmente interessado naquele instante.

Percebi que acompanhar de longe muda a forma como sentimos. Quando tudo o que sabemos dos outros vem mediado por tela, o senso de empatia diminui e o de julgamento acelera. A distância transforma a interpretação em suposição, e a suposição é uma lente distorcida. Mesmo quando há vídeos, fotos, áudios, nada substitui a transparência dos sentimentos quando duas pessoas se olham e conversam. Presencialmente, as emoções se mostram de forma mais fidedigna, mais honesta. A expressão online é limitada, tanto pela dificuldade que temos em traduzir afeto em palavras e emojis, quanto pela escassez de tempo que as telas impõem.

As pessoas hoje têm uma só tela para tudo: trabalho, notícia, lazer, afeto. É natural que o tempo de tela se torne um recurso a ser gerenciado. Só que quando estamos com amigos, esse tempo deixa de ser um recurso para ser um espaço. Um tempo que se dilata, que não precisa de planejamento. Um tempo que não se mede em produtividade. Essa diferença é crucial entre a vida vivida e a vida contada: o desnível de empatia, a imprecisão do julgamento e a fragilidade da troca.

Tenho consciência de que falar sobre tempo e atenção é também um privilégio. Tenho trinta e poucos anos e uma vida que me permite certa autonomia sobre o que consumo e com quem me conecto. Mapeei esses privilégios e procuro agir com essa consciência. Tento desacelerar. Observar mais, consumir menos, estar mais disponível para as experiências e não para os algoritmos.

Mas essa reflexão não é só pessoal. É também um convite profissional, principalmente pra quem trabalha com tecnologia. O mercado vem transformando nossa solidão, nossa carência e nosso medo de ficar para trás em mercadoria. A atenção virou um ativo, e o desespero, uma fonte de lucro. Plataformas inteiras foram construídas sobre o vício da comparação e a ansiedade do tempo real (sim, estou falando de você que passa um tempão vendo reels antes de dormir).

Por isso, como profissionais da tecnologia, a gente precisa se perguntar: estamos criando sistemas que servem às pessoas ou apenas explorando suas fragilidades? Estamos ajudando a construir experiências saudáveis ou só desenhando mecanismos de drenagem mental?

A tecnologia precisa estar a serviço da vida, e não o contrário. Precisamos de produtos e interfaces que respeitem o tempo humano, a saúde mental, o silêncio e o espaço. Que devolvam às pessoas a possibilidade de contemplar, e não apenas reagir.

No fim, o que eu busco é isso: menos distração, mais presença. Menos feed, mais afeto. Menos consumo, mais contemplação. Que a vida volte a caber no tempo que ela precisa, e não no tempo que a tela permite.

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